Robin dos Bosques Precisa-se
Neste meu Portugal, começamos a
encarar a ideia de, em breve, surgir pessoal em collants (ou leggings para
acompanhar a moda) a assaltar os ricos para dar aos pobres (que muito
possivelmente será quem assalta, mas isso agora são questões técnicas). Porquê?
Porque a necessidade assim obriga. Será nos jardins de Sintra, do alto dos
penedos do Gerês e nas planícies do Alentejo que estes “bandidos” vão lutar
contra uma polícia de tal forma bem preparada que já têm de trazer resmas de papel
de casa para imprimir os relatórios a justificar que chegaram atrasados naquele
dia porque ficaram sem combustível nos carros.
Numa entrevista a um destes beligerantes,
poderá ler-se: “ ladrão que rouba ladrão tem mil anos de perdão!” E na verdade
para quem ganha milhões, que história é essa de ficar ofendido quando tem de
partilhar a sua riqueza com outros? Já cá voltamos…
Acompanhei, até há pouco tempo,
em jornais nacionais, a saga de notícias sobre "Pequenos furtos nos supermercados" - publicado no
Jornal Notícias de Gaia (edição de 29-03-2012) e ao que parece, num
destes casos, se acusava um pobre do roubo de um pacote de ervilhas?!!
Depois de algum tempo (que na
justiça portuguesa isto significa anos), o processo chegou às salas do
tribunal, onde o réu foi julgado à revelia porque nunca mais o alegado
criminoso foi visto apesar de várias buscas por parte das autoridades (que às
tantas casou, teve filhos e é agora proprietário de uma cadeia de
supermercados…).
Curiosamente apareceu-me o
seguinte texto publicado de um profissional do Direito preocupado, retirado da
Net:
“Mais me custa ouvir e
presenciar a retórica do grande comércio de que “todo o crime deve ser punido”,
quando já assisti ao desperdício de centenas de pães deitados num contentor do
lixo por uma grande empresa ao fim do dia, num local guardado por seguranças
privados para que ninguém pudesse aproveitar tais alimentos que estavam prontos
a consumir mas que apenas não foram vendidos durante o horário de funcionamento
dessa grande superfície”
Eh pá!! Fiquei confuso!! Mas então qué isto??! Não se deve roubar. É feio. Mas eu próprio já
assisti a pessoas a vasculharem no caixote do lixo e pior, serem enxovalhadas e
escorraçadas por o fazerem. Como se tivessem alternativa…
Já fui assaltado. Entraram na minha casa e levaram o que
quiseram. Fiquei revoltado porque me disseram que era para comprar droga.
Pensei para comigo: “Isso não! Se fosse para comprar uma bucha e uns garrafões
de tintol ainda aceitava, agora porcarias não!!”
Acabei então por compreender que o acto de roubar, se for
nobre, manifesta a necessidade de sobreviver.
Inclusive, para o País sobreviver, torna-se legitimo
“roubar” os subsídios de Natal, de Férias, disto e daquilo. Paguem mais
impostos (e aqui já lembra outra vez os vilões da história do Robin dos
Bosques), menores salários, mais horas de trabalho, enfim aquilo a que se chama
a escravatura do Séc.XXI. Isto quem vai tendo emprego. Quem não tem dedica-se a
ter esperança, embora até isso vai sendo surripiado lentamente.
Num país onde quem rouba milhões tem posições hierárquicas
bastante apetecíveis, ganha o que quer, faz o que quer e quando não corre bem
foge para o estrangeiro ou contorna um sistema judicial já deveras viciado e/ou
debilitado, parece-me que o surgir de um herói é um imperativo, alguém que
roube aos que demais têm, para devolver alguma dignidade a quem tem de almoçar
o que lhe calha no contentor das
redondezas.
Eu não posso. Estou a trabalhar até às tantas. Sou um bom escravo. E até estudei e isso. Mas
faltaram me as orientações pedagógicas vulgarmente chamadas de “cunhas” para
ser um quadro superior. Além disso collants não me ficam bem.
Bem haja
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